Conselheiro do Papa alerta para risco de 'cartel' na regulação de IA
Em entrevista à Wired, o padre Paolo Benanti criticou o domínio de grandes laboratórios e defendeu a regulação democrática de modelos de inteligência…
Resumo rápido
- O acadêmico e padre Paolo Benanti afirma que poucas empresas tentam ditar as regras da inteligência artificial.
- Para o especialista, o debate sobre superinteligência distrai da necessidade de controle humano e regulação pública.
- A Igreja Católica se manifestou sobre o tema em encíclica do Papa Leão XIV, criticando a busca por dominância.
Entenda o contexto
Grandes empresas de tecnologia têm liderado a criação de modelos avançados de inteligência artificial e proposto diretrizes para a segurança do setor. O debate envolve saber se as regras de governança devem ser estabelecidas pelas próprias companhias ou impostas por órgãos governamentais de forma democrática.
O padre e acadêmico Paolo Benanti, que atua como conselheiro sobre inteligência artificial para a Igreja Católica, afirmou em entrevista publicada pela revista Wired nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026, que a atuação dos principais laboratórios do setor para ditar as regras do mercado configura um comportamento de "cartel". Segundo o especialista em filosofia, teologia e tecnologia, os alertas espalhafatosos sobre superinteligência acabam excluindo a sociedade do debate público sobre os limites da tecnologia.
Na avaliação de Benanti, a narrativa construída pelas empresas na linha de frente do desenvolvimento responde a interesses próprios para alcançar ou manter posições de mercado. O especialista defende que a ética e a regulamentação não devem ser definidas pelos conselhos de administração das corporações, mas por meio de debate democrático em praça pública. O objetivo central, segundo ele, deve ser estabelecer padrões que impeçam que os modelos percam o controle humano.
Risco existencial e o debate sobre regulação
As declarações ocorrem em um cenário de intensas discussões sobre segurança e governança. O executivo-chefe da Anthropic, Dario Amodei, defendeu em ensaio recente a obrigatoriedade de avaliações por terceiros antes do lançamento de novos modelos de IA, além de restrições à destilação — processo no qual laboratórios rivais treinam seus sistemas com base nos resultados de modelos proprietários. Outros analistas sugerem até o banimento do autoaperfeiçoamento recursivo, em que a IA utiliza capacidades avançadas de programação para desenvolver suas próprias versões futuras.
Apesar disso, Benanti ressalta que é difícil mensurar a precisão das previsões das empresas sobre capacidades futuras devido aos incentivos econômicos e políticos envolvidos. Ele lembra que organizações como OpenAI e Anthropic apoiam pedidos por desaceleração no desenvolvimento ao mesmo tempo em que preparam ofertas públicas de ações, movimentando bilhões de dólares. Procurada pela reportagem da Wired, a Anthropic optou por não comentar, enquanto OpenAI e Google DeepMind não responderam aos pedidos de contato.
Críticas à visão mística da tecnologia
O acadêmico também contestou a forma como alguns setores do setor tratam a superinteligência, comparando o tom a uma reverência religiosa sobre um sistema que seria onipotente. Para Benanti, esse enquadramento distorce a discussão real. Ele enfatiza que a tecnologia se trata puramente de matemática e computação estatística, e não da criação de uma nova divindade.
A posição também reflete orientações formais do Vaticano. Em maio, o Papa Leão XIV dedicou sua primeira encíclica à inteligência artificial. No documento, o líder religioso alertou contra a lógica tecnocrática que enxerga a eficiência como medida máxima e os seres humanos como projetos a serem otimizados. O Papa defendeu a cooperação internacional para barrar disputas por dominância geopolítica e comercial, alertando para o perigo de a humanidade se tornar vítima das próprias realizações.
Embora integre o sacerdócio, Benanti não representa formalmente a Santa Sé e presta assessoria como especialista. Ele afirmou utilizar sistemas de inteligência artificial na elaboração de materiais didáticos para estudantes universitários, mas não detalhou se ou como o Papa Leão XIV utiliza essas ferramentas, citando compromissos de sigilo.
Referências
- Reportagem consultada: Wired — IA
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