Reino Unido admite que estimativa de £ 400 bi para IA veio do Google
Ministro de IA do Reino Unido afirma que projeção de £ 400 bilhões veio de relatório pago pelo Google e que estimativa do governo é de £ 120 bilhões.
Resumo rápido
- O governo britânico utilizou por dois anos a projeção de que a IA traria £ 400 bilhões à economia, valor vindo de estudo encomendado pela Google à Public First em 2023.
- O ministro de IA Kanishka Narayan admitiu que a estimativa do próprio governo é de £ 120 bilhões até 2030, número por ele definido como altamente incerto.
- Integrantes do Parlamento e o Ada Lovelace Institute criticaram a dependência governamental de dados financiados pelo setor privado.
Entenda o contexto
Modelos econômicos são utilizados por governos para projetar o impacto de tecnologias na produtividade e nos serviços públicos. O caso expõe a controvérsia sobre a utilização de estimativas encomendadas por empresas de tecnologia na formulação e divulgação de políticas públicas oficiais.
O governo do Reino Unido utilizou por quase dois anos, sob duas gestões diferentes, a projeção de que a inteligência artificial poderia gerar um impulso de 400 bilhões de libras à economia britânica. Em resposta a um questionamento parlamentar, o ministro de IA do país, Kanishka Narayan, admitiu que esse valor foi retirado de um relatório público de 2023 encomendado pela Google e elaborado pela consultoria britânica Public First (atualmente chamada PF Global).
Segundo Narayan, a estimativa do próprio governo britânico para o impacto econômico da tecnologia é inferior a um terço desse montante. A avaliação oficial aponta que a adoção de IA e o investimento em dados podem somar entre 55 bilhões e 140 bilhões de libras à economia do Reino Unido até 2030, com uma estimativa central de 120 bilhões de libras. O ministro ressaltou que até mesmo essa avaliação recente consiste em uma estimativa "enormemente incerta".
Por que as projeções econômicas apresentam divergências?
A disparidade entre os números reflete diferentes premissas sobre o ritmo de implementação da tecnologia. Segundo declarou à Wired o chefe de economia da PF Global, Jonathan Dupont, a diferença decorre em parte do que observaram como uma adoção governamental de IA mais lenta. Dupont afirmou que o modelo antigo previa uma taxa de adoção mais rápida do que a observada na prática e que a estimativa central da consultoria para 2030 aproxima-se atualmente do número do governo.
Apesar de os ministros disporem da estimativa reduzida desde pelo menos novembro de 2025, órgãos governamentais continuaram a divulgar a cifra de 400 bilhões de libras nos meses seguintes. A agência Skills England, responsável por aprendizagens profissionais, publicou o valor antigo quatro meses após os integrantes do governo receberem o cálculo menor. Ex-ministros como Peter Kyle também utilizaram a cifra de 400 bilhões de libras para promover os benefícios da tecnologia.
Quais foram as reações de parlamentares e especialistas?
Integrantes do Parlamento e analistas criticaram a dependência de números formulados pelo setor privado:
- Chi Onwurah: A deputada do Partido Trabalhista e presidente do Comitê de Ciência, Inovação e Tecnologia da Câmara dos Comuns afirmou que o exagero nos benefícios da tecnologia arrisca minar a defesa de mudanças e defendeu transparência sobre economias potenciais.
- Lord Holmes of Richmond: O membro conservador da Câmara dos Lordes, que havia questionado os ministros sobre a origem do valor de 400 bilhões de libras em janeiro de 2025 sem obter resposta, declarou que o ajuste tardio é lamentável e que dados robustos são críticos quando bilhões de libras em recursos públicos dependem deles.
- Sumedha Deshmukh: A representante do Ada Lovelace Institute apontou ser preocupante que a revisão ocorra após quase dois anos de citações a pesquisas pagas pela Google, defendendo que o governo teste os dados recebidos antes de formular políticas públicas e financie pesquisas independentes.
A consultoria PF Global declarou à reportagem que seus trabalhos para a Google prosseguem, mas ressaltou que todas as pesquisas são independentes e que os julgamentos e premissas adotados pertencem à própria empresa. O Cabinet Office do governo britânico e a Google foram procurados para comentar o assunto.
Referências
- Reportagem consultada: Wired — IA
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