PACs de IA gastam milhões em eleições nos EUA e colhem resultados mistos

Comitês a favor e contra a indústria da inteligência artificial gastaram milhões nas eleições nos EUA, mas viram vários de seus candidatos perderem.

Por Redação Noticiário IA

· 5 min de leitura

Fachada do Capitólio dos Estados Unidos sob céu azul ensolarado.
Imagem: TechCrunch — IA

Resumo rápido

  • Comitês de ação política do setor de inteligência artificial e grupos de salvaguardas gastaram milhões nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
  • Os investimentos produziram resultados mistos, com derrotas significativas de candidatos que receberam aportes milionários das entidades.
  • O debate central envolve a criação de um arcabouço federal para a IA em oposição à autonomia dos estados para impor regras próprias.
Entenda o contexto

Comitês de ação política (PACs) são organizações que arrecadam e gastam fundos para apoiar ou derrotar candidatos em eleições nos Estados Unidos. A atuação desses grupos na área de inteligência artificial reflete a disputa entre empresas do setor, que buscam regras federais padronizadas, e ativistas que cobram regulação e preservação de salvaguardas estaduais.

Grupos de ação política voltados tanto para o apoio à indústria de inteligência artificial quanto para a defesa de regras de segurança mais rígidas gastaram milhões de dólares para tentar influenciar os resultados das eleições de meio de mandato de terça-feira nos Estados Unidos. Conforme relata a reportagem do TechCrunch, o investimento expressivo gerou resultados mistos na disputa de vagas para o Congresso e governos estaduais, com a derrota de vários candidatos fortemente financiados por essas organizações.

Investimentos da indústria e resultados nas urnas

Do lado favorável às empresas do setor, dois comitês de ação política (PACs) focados em IA — o American Mission e o Building the Future — investiram juntos US$ 4,8 milhões no apoio à candidatura de Darline Graham ao Senado pela Carolina do Sul, mas a candidata não foi eleita. O American Mission é o braço de financiamento para republicanos do Leading the Future (LTF), grupo político que conta com o apoio do presidente da OpenAI, Greg Brockman, e da firma de capital de risco Andreessen Horowitz.

O American Mission também direcionou mais de US$ 500 mil individualmente às campanhas dos candidatos republicanos à Câmara dos Deputados Aaron Flint, em Montana, e Laurie Buckhout, na Carolina do Norte. Ambos saíram derrotados de suas disputas. Já o Think Big, braço de financiamento do LTF voltado a candidatos do Partido Democrata, teve um resultado positivo na reeleição do deputado Jared Moskowitz, na Flórida.

Atuação dos grupos defensores de regulamentação

Organizações que defendem limites e proteções mais severas para a IA também apresentaram desempenhos variados. O Public First, apoiado pela Anthropic, financiou diversos candidatos republicanos derrotados por meio de seu PAC afiliado, mas obteve melhor desempenho no apoio a nomes democratas. Além disso, a entidade destinou US$ 3 milhões a um comitê que apoiava o senador estadual Scott Wiener, na Califórnia, que liderava a apuração até o momento da publicação das informações.

Em outra frente, o Guardrails Alliance, que busca transformar o recebimento de recursos da indústria de IA em uma desvantagem política para candidatos, investiu mais de US$ 1 milhão na oposição a dois nomes: o deputado Jimmy Gomez, da Califórnia, e o candidato Aaron Flint, em Montana, que perderam as suas disputas. A organização também direcionou US$ 300 mil no financiamento da candidatura de Angela Gonzales-Torres, que derrotou Gomez.

Foco estratégico nas eleições primárias

A reportagem do TechCrunch aponta a dificuldade de isolar o impacto financeiro das campanhas ligadas à IA no contexto geral do pleito, marcado por uma onda de vitórias do Partido Democrata nas eleições de terça-feira. Outras figuras de destaque no setor de tecnologia também viram aliados perderem: Elon Musk, que segundo relatos aportou meio bilhão de dólares no apoio a republicanos, viu muitos de seus candidatos indicados serem derrotados.

Para o LTF, a eleição geral não era o foco principal das suas operações financeiras. Em declaração concedida antes do dia da votação, a organização afirmou ao TechCrunch entender que as disputas primárias — fase interna dos partidos para a escolha dos indicados — representam o uso mais eficiente do seu orçamento. Segundo o grupo, os investimentos nas primárias ajudam a construir o reconhecimento do nome do candidato e a estabelecer propostas de políticas voltadas à inteligência artificial.

Durante as primárias, o LTF destinou US$ 27,38 milhões às campanhas, montante que incluiu US$ 8 milhões gastos unicamente para fazer oposição a Alex Bores, membro da Assembleia de Nova York que tentava uma vaga no Congresso e foi derrotado em junho. Para decidir o ingresso em disputas gerais, o LTF declarou que avalia a competitividade da eleição, o potencial de o dinheiro influenciar o resultado e a conveniência de preservar recursos para pleitos futuros.

Estratégia oposta e polarização regulatória

Uma visão diferente sobre a atuação do LTF nas eleições gerais foi apresentada por Charlie Blaettler, diretor político do Guardrails Alliance. Segundo o executivo, o grupo pró-indústria teria limitado os gastos para evitar que a própria origem do financiamento se tornasse um problema eleitoral. Blaettler traçou um paralelo com as primárias do Senado em Michigan, nas quais o grupo de pressão AIPAC investiu quase US$ 30 milhões em favor de Haley Stevens contra Abdul El-Sayed, gerando reações negativas na opinião pública sobre a influência do financiamento na disputa. Stevens acabou concedendo a vitória na primária a El-Sayed, que posteriormente se elegeu ao Senado.

Blaettler argumentou que os eleitores mantêm desconfiança em relação aos grandes empresários do setor de tecnologia e aos gastos de lobbying da indústria. O diretor afirmou ainda que, enquanto o LTF veicula anúncios focados em pautas populares sem citar diretamente o tema da inteligência artificial, o Guardrails Alliance produz campanhas direcionadas especificamente a divulgar quais candidatos aceitam dinheiro da indústria, com o objetivo explicitado de tornar os aportes financeiros do setor indesejados politicamente.

A controvérsia central entre os grupos de ação política de ambos os lados gira em torno da estrutura jurídica a ser adotada no país: de um lado, a tentativa de estabelecer um arcabouço regulatório federal único para a inteligência artificial no Congresso dos EUA que prevaleça sobre leis locais; do outro, a manutenção da autonomia dos estados para criar suas próprias salvaguardas. O LTF, que defende a regra única nacional, informou que pretende continuar gastando nas eleições de 2028, enquanto o Guardrails Alliance reiterou a intenção de manter a oposição aos candidatos financiados pelo setor.

Referências

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