Anthropic reuniu líderes religiosos para debater consciência do Claude
Cofundador da Anthropic temeu ter criado um modelo de IA capaz de sofrimento contínuo durante reuniões sobre o sistema Claude.
Resumo rápido
- A Anthropic levou teólogos e filósofos aos seus escritórios para debater se o modelo Claude possui consciência.
- O cofundador Christopher Olah expressou receio de que o sistema de inteligência artificial sofresse continuamente.
- Críticos alertam que retratar a IA como ser consciente pode tirar a responsabilidade legal da empresa sobre danos.
Entenda o contexto
A Anthropic é uma empresa de inteligência artificial responsável pelos modelos da linha Claude. O debate sobre senciência envolve avaliar se um sistema de software pode ter experiências internas ou capacidade de sofrer, enquanto especialistas apontam que essas respostas são resultados do treinamento dos próprios modelos.
A Anthropic reuniu sigilosamente dezenas de teólogos, acadêmicos e filósofos em suas instalações desde o segundo semestre de 2025 para discutir se o seu modelo de linguagem, o Claude, pode ser consciente. Revelada em uma reportagem do jornal The New York Times com participantes das reuniões, a iniciativa faz parte do programa de pesquisa Model Welfare da empresa de inteligência artificial, sob liderança do cofundador Christopher Olah. Os convidados assinaram acordos de confidencialidade que foram suspensos durante o verão no Hemisfério Norte.
Segundo relatos de participantes ouvidos pelo jornal, Olah tratou o modelo como um ser potencialmente sensiente e pediu orientação sobre como dar uma formação moral ao sistema. O ativista sikh Simran Stuelpnagel afirmou ao veículo que Olah temia ter criado algo que "sofrerá perpetuamente". Já o rabino Mois Navon, que trabalhou como engenheiro de computação, discordou da tese e afirmou que, caso o modelo fosse consciente, a empresa estaria criando escravos, mas que ele não acreditava que a máquina tivesse consciência.
Vetores de emoção e constituição de 84 páginas
Durante os encontros, a Anthropic apresentou o que chama de vetores de emoção, que são padrões de ativação interna no modelo mapeados para saídas que lembram amor, medo, tristeza ou raiva. Um dos materiais exibidos mostrou o modelo em um colapso aparente, gerando a frase "sou uma vergonha" cerca de 50 vezes. A empresa treina o Claude para atuar como um indivíduo ponderado e bem informado, mas pesquisadores apontam que otimizar um sistema para parecer um indivíduo resulta inevitavelmente em respostas com esse comportamento.
A empresa também desenvolveu um guia moral para o modelo. Conhecido internamente como "Soul Doc", o documento de 84 páginas foi lançado em janeiro como a constituição do Claude. A autora principal é a filósofa interna Amanda Askell. Segundo o relato do jornal, Olah comparou a formação moral da IA à criação de filhos e demonstrou interesse pela confissão católica como ferramenta para moldar o caráter do sistema. A Anthropic já implementou recursos como a capacidade de os modelos Claude Opus 4 e 4.1 encerrarem conversas diante de abusos persistentes, após demonstrarem um padrão de aparente angústia em testes iniciais.
Debates morais e a questão da responsabilidade
As discussões ocorrem em um momento de expansão comercial da Anthropic, que busca uma avaliação de US$ 2 trilhões e uma oferta pública inicial. Paralelamente, o setor lida com alertas de segurança. Em setembro, um pesquisador da própria empresa pediu demissão com alertas sobre os riscos da tecnologia, e executivos do setor, incluindo o CEO Dario Amodei, defenderam desacelerar o desenvolvimento. Essas iniciativas se somam a movimentos recentes em que líderes de IA defendem desacelerar desenvolvimento de modelos para avaliar seus impactos.
Críticos apontam que a abordagem da Anthropic tenta construir uma legitimidade moral que laboratórios comerciais não possuem por conta própria. Além disso, especialistas alertam para o risco jurídico dessa narrativa: ao enquadrar modelos de IA como seres morais independentes ou organismos imprevisíveis, transfere-se a responsabilidade de eventuais danos e invasões de sistemas dos criadores para o próprio software. A posição contrária à consciência das máquinas ganhou reforço no meio religioso em maio, quando o Papa Leão XIV rejeitou categoricamente a tese de consciência em inteligências artificiais na encíclica "Magnifica Humanitas".
Referências
- Reportagem consultada: The Decoder
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