Acesso a IA reduz disposição de pessoas em admitir desconhecimento
Estudo com 3.132 participantes aponta que sugestões de IA elevam a confiança dos usuários, mas derrubam a taxa de acertos em perguntas difíceis.
Resumo rápido
- Acesso a conselhos de IA reduziu quase a zero a disposição dos participantes em responder que não sabiam a resposta.
- Com acesso à IA e sem incentivo financeiro, o índice de acertos caiu de 27,5% para 9,2% no conjunto dos testes.
- Respostas exibidas automaticamente derrubaram a abstenção de 35% para 1% em testes sem estímulos financeiros.
Entenda o contexto
Alucinação é o termo usado para definir momentos em que modelos de IA geram informações incorretas com tom de certeza. O estudo aborda o efeito comportamental em que a assertividade das respostas automatizadas leva as pessoas a confiarem no sistema e reduzirem a cautela ao responder.
A disponibilidade de sugestões geradas por inteligência artificial reduz de forma drástica a disposição das pessoas em admitir que não sabem uma resposta. Essa é a conclusão de um estudo baseado em cinco experimentos com 3.132 participantes, publicado neste sábado, 26 de setembro de 2026. A pesquisa analisou como o acesso a modelos de linguagem altera a forma como as pessoas lidam com dúvidas e situações de incerteza.
Para realizar os testes, os pesquisadores selecionaram perguntas sobre detalhes visuais específicos de filmes, como a cor do uniforme de um time no filme Bend It Like Beckham. Por serem informações raramente encontradas em textos na internet, esse tipo de pergunta favorece o surgimento de alucinações. O modelo utilizado nas consultas do teste foi o Step 3.5 Flash, que errou quase todas as questões desse tipo. Outros sistemas citados na pesquisa, como GPT-5.5, Claude 4.6 Sonnet e Gemini 3.5 Flash, acertaram a maioria das demais perguntas, mas também falharam em questões mais difíceis.
Queda nas abstenções e na taxa de acertos
Nos dois primeiros testes (1a e 1b), nos quais os participantes podiam escolher se queriam consultar a IA, o grupo de controle sem acesso ao modelo deixou de responder a 36% e 44% das perguntas. Quando o acesso à IA foi liberado, os índices de abstenção despencaram para 6% e 3%. No geral, considerando todos os experimentos sem incentivos financeiros, as pessoas com acesso à IA acertaram 9,2% das perguntas, enquanto o grupo sem a ferramenta obteve 27,5% de acertos.
A pesquisa também avaliou a confiança do público em uma escala de zero a 100 pontos. Sem estímulo financeiro, o nível de confiança daqueles que usaram a IA alcançou 75,9 pontos, contra 29,6 pontos no grupo sem o recurso. No entanto, a porcentagem de acertos desses voluntários caiu de 27,6% para 10,0%. Ou seja, o acesso à tecnologia aumentou a confiança dos usuários, mas reduziu significativamente a precisão das respostas fornecidas.
Efeitos de incentivos e exibição automática
Do segundo ao quarto teste, os pesquisadores introduziram um sistema de pagamento: os voluntários ganhavam 10 centavos de dólar por acerto, perdem 10 centavos por erro e não recebiam nada se optassem por não responder. Os incentivos financeiros fizeram com que os participantes pedissem menos conselhos à IA — caindo de 5,27 para 4,53 solicitações em seis chances no terceiro teste — e aumentaram a taxa de acertos, mas a abstenção continuou bem abaixo dos níveis observados no grupo sem acesso à IA.
No quarto teste, a resposta da IA foi exibida automaticamente aos participantes, sem a necessidade de uma solicitação manual. Os pesquisadores apontam que essa condição simula a presença de resumos automatizados em mecanismos de busca e sugestões de assistentes de escrita. Nesses cenários com exibição automática e sem pagamento, a abstenção caiu de 35% sem IA para 1% com o sistema. Quando houve recompensa financeira, a taxa de abstenção passou de cerca de 39% para 7%.
Impactos na cognição e no julgamento crítico
Os autores associam esses resultados ao conceito de "Epistemia", que se refere à tendência das pessoas em aceitar respostas de sistemas de IA devido ao tom convincente do texto, sem checar as informações. Como os modelos de linguagem não pausam nem indicam desconhecimento, os usuários acabam adotando essa mesma falta de restrição. O comportamento diverge de estudos tradicionais sobre conselhos humanos, nos quais as pessoas costumam dar menos peso a opiniões externas.
A publicação cita ainda outros trabalhos sobre os impactos da IA na cognição. Uma pesquisa da Swiss Business School com 666 voluntários identificou uma relação negativa entre o uso frequente da IA e o pensamento crítico. Da mesma forma, investigações publicadas pela Microsoft mostram que o uso dessas ferramentas exige bastante da metacognição — a capacidade de monitorar o próprio pensamento —, destacando que níveis mais elevados de escolaridade funcionam como um fator de proteção.
Referências
- Reportagem consultada: The Decoder
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